Ele se aproximou, e o que leu partiu o coração daquele homem, tão acostumado à miséria humana. O caderno era velho, suas páginas amareladas e amassadas pelo tempo e pela umidade. A caligrafia era trêmula, mas ainda legível, ditada por uma urgência de vida ou morte. “Se algo me acontecer, Lily sabe o que fazer; mostrei o caminho para o hospital à minha filha.” “Eu disse a ela para nunca abandonar os irmãos e para cuidar deles como eu cuidei dela.” “Sinto muito por não poder fazer mais; sinto muito por não ser suficiente.”
Mais abaixo, outra anotação, datada do primeiro dia após o parto, descrevia o horror da situação. “Primeiro dia pós-parto: me sinto fraca; não consigo levantar do colchão.” “Lily me traz água; ela me diz para não me preocupar, apesar da pouca idade.” “Ela tem apenas sete anos e já é muito mais forte do que eu nessa provação.” No segundo dia, as anotações tornaram-se mais erráticas, refletindo a deterioração de sua saúde. “Dia 2: Os bebês estão chorando muito; não tenho mais leite para alimentá-los.”
“Lily dá água com açúcar para eles, não sei se é bom, mas é tudo o que temos aqui.” No terceiro dia, a escrita não passava de um rabisco quase ilegível no papel amarelado. “Dia 3: Não consigo mais abrir os olhos, Lily me pergunta se estou bem e eu minto para ela.” “Digo que sim, mas ouço os bebês chorando sem poder pegá-los no colo, me perdoe.” O último